Em seis anos, o
programa de incentivo ao crédito Procaminhoneiro, do Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), viabilizou a troca de apenas 3% da
frota de caminhões, que tem idade avançada.
De 2006, ao ser
lançado, até 2011, só 52.097 caminhões foram financiados pelo programa. A frota
nacional é de 1,7 milhão de caminhões, com idade média de 13 anos -ou 19, ao
considerar apenas os transportadores autônomos, donos de 46% dos veículos.
A cada três anos o
brasileiro troca de carro de passeio, estima a Associação Nacional das Empresas
Financeiras das Montadoras (Anef).
Em 2010, seu melhor
ano, o Procaminhoneiro financiou 22% dos veículos vendidos no país. Em 2011,
foram só 4%.
Nesta semana, ao anunciar
medidas para a economia, o ministro da Guido Mantega aumentou o prazo de
financiamento do Procaminhoneiro de 96 para 120 meses. O principal entrave a
esse crédito, contudo, não está no prazo nem no juro subsidiado, mantido em
5,5% ao ano.
Os autônomos dizem
que não conseguem acessar a linha principalmente por dificuldades na
comprovação da renda e no atendimento de outras burocracias exigidas por bancos
de varejo que repassam o crédito do BNDES.
Cartas-frete –
Norival de Almeida Silva, presidente do Sindicado dos Caminhoneiros de São
Paulo, diz que praticamente nenhum autônomo tem comprovante de renda. É que,
até o ano passado, os pagamentos dos fretes eram feitos pelas empresas por meio
das chamadas cartas-frete.
Trata-se de um
crédito que o caminhoneiro recebe das empresas contratantes para trocar por
mercadorias, em postos de gasolina e lojas. Nesse sistema sem moeda oficial, os
caminhoneiros na prática vivem na informalidade, obrigados a pagar ágios para
descontar as cartas.
“A renovação da frota
é quase impossível para um autônomo”, afirmou Silva.
Dos caminhões
financiados pelo Procaminhoneiro, apenas 18.451 foram contratos com pessoas
físicas.
A carta-frete deveria
ter terminado em 2011, proibida pela Agência Nacional de Transportes
Terrestres. Mas somente neste mês a ANTT iniciou a fiscalização.
Segundo Marcelo
Prado, gerente de fiscalização da ANTT, os caminhoneiros têm de receber em
conta bancária ou por meio de cartões de pagamento credenciados.
Mas, segundo Silva,
os responsáveis pelas cargas não querem fazer o registro na agência, mantendo
assim o sistema da carta-frete.
O BNDES, responsável
pelo programa, informou que o programa ganhou impulso após 2009, quando passou
a ter uma linha garantida pelo governo.
A partir daquele ano,
foram financiados 46,8 mil caminhões. Para o banco, as medidas do governo podem
aumentar a procura.
Caminhoneiro financia
veículo de 1980; modelo 2004 é seminovo – Em terreno próximo à rodovia Fernão
Dias que serve como pátio para centenas de caminhoneiros, a dificuldade de
comprar um veículo moderno é visível. Mecânicos trabalham em modelos da década
de 1970 e um veículo de 2004 é “seminovo”.
Muitos preferem arcar
com a manutenção de seus veículos mais antigos a ter de passar pelo aperto que
envolve o financiamento de um bem que pode custar R$ 200 mil.
José Roberto Ferreira
da Silva, 33, diz que foi necessário pedir ao patrão do irmão para financiar o
seu caminhão atual, um Volkswagen 23210, ano 2004, avaliado em cerca de R$ 100
mil. Faltam três parcelas para quitá-lo.
“O autônomo consegue
financiamento só se tiver três anos de registro na ANTT, outro caminhão ou um
imóvel.”
Ele não chegou a
tentar um empréstimo diretamente nos bancos por causa dessa dificuldade, mesmo
conhecendo o programa de incentivo ao crédito Procaminhoneiro.
Clayton de Vargas
Martins, 42, financiou 40% de seu caminhão atual, um Scania 141, ano 1980, que
vale cerca de R$ 40 mil. “E só consegui porque já tinha um outro, mais antigo”,
afirma.
Para ele, a
carta-frete -proibida pela Agência Nacional de Transportes Terrestres- não é um
problema para a categoria.
Segundo Martins, é o
valor baixo do frete que torna difícil renovar a frota.
Sobre o
Procaminhoneiro, Martins é cético. “Fizeram isso para as empresas.”
Fonte: SETCESP